José de Almada Negreiros
12:45 Postado por Unknown
Tudo dum folgo, com uma força estonteante, num poema desbragado, intenso, louco e soberbo, a que Mário Viegas emprestou igual força e muita arte.
Se o poema, em si, tem uma força extraordinária, dito por Mário Viegas ganha ainda uma muito maior força e dimensão.
É vigoroso e extraordinário o poema. É vigorosa, extraordinária, alucinante e inesquecível a prestação de Mário Viegas.
A classe burguesa é, sem dúvida, a maior inimiga, mas ao mesmo tempo a maior incitadora do movimento futurista português.
Almada critica-os severamente, em obras como a "Cena do Ódio", "A Engomadeira" e "K4 O Quadrado Azul".
CENA DE ÓDIO
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes
p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!

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